GRADUAÇÃO PÓSTUMA

R$ 1,37 bilhão não traz nosso filho ALEX SCHOMAKER BASTOS de volta à vida. Mas se evitar apenas um assassinato num ponto de ônibus qualquer do Rio de Janeiro, será um dinheiro bem aplicado. Pezão, evite a morte de mais cariocas e aplique este dinheiro na Segurança.

Mausy e Andrei
Pais orgulhosos e entristecidos de ALEX SCHOMAKER BASTOS.
‪#‎eusoualex

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Nossas palavras na formatura de Alex


Hoje, dia 26 de janeiro, é o dia da formatura de ALEX SCHOMAKER BASTOS. Mas ele não pode prestar o juramento do biólogo. Ele foi assassinado, com sete tiros, em um assalto na Rua General Severiano, em frente ao Campus da UFRJ. Alex tinha em sua carteira, que não foi levada, R$ 12,00 e um Riocard.

A vida no Rio de Janeiro está valendo muito pouco.

Por isso, nós, Mausy e Andrei, pais orgulhosos e estraçalhados pela dor, recebemos seu certificado de conclusão.
Não temos palavras para descrever nossa profunda tristeza.

RESUMIMOS ABAIXO NOSSAS PALAVRAS NA FORMATURA DE ALEX:

Alex,

Hoje é um dia muito importante para mim, seu pai, seus irmãos, toda sua família e todos os seus amigos.

Você está se formando como biólogo e como professor. Suas duas grandes paixões. E nós estamos aqui para, com imenso orgulho, receber este diploma com você.

Mas, Alex, nós trouxemos você no nosso coração, e você não está aqui para fazer seu juramento. Nós vamos receber seu tão esperado diploma porque o Estado brasileiro e o do Rio de Janeiro mataram você com muitos tiros, porque você resolveu pegar um ônibus às 9h da noite em frente à sua amada UFRJ. Na nossa cidade, pegar um ônibus à noite é crime.

Por isso, amado filho, esta cerimônia com o imenso vazio da sua ausência é em sua homenagem.

E nós, Mausy e Andrei, seus dilacerados pais, vamos falar com seus colegas, que se formam hoje junto com você.

Antes de mais nada, Andrei e eu queremos agradecer do fundo do coração toda a solidariedade e carinho que recebemos dos amigos, colegas e professores do Colégio de Aplicação, da Faculdade de Educação e do Instituto de Biologia.

Andrei e eu gostaríamos que vocês formandos, seus familiares e amigos se alegrassem pelo diploma e pelo juramento que fazem hoje. Lembrem do Alex, nosso amado filho, que gostaríamos de acreditar que está aqui conosco e é um jovem cheio de sonhos e planos. E estamos dizendo É UM JOVEM CHEIO DE PLANOS porque não vamos NUNCA FALAR DE NOSSO FILHO NO PASSADO.

ELE é sempre presente.

Ele está presente em nós para sempre, como presente deve estar sempre em vocês a vontade de melhorar o mundo, de ampliar os horizontes, de não se conformar, de DIZER NÃO PARA O QUE ESTÁ ERRADO.

Não se conformem, por exemplo, como o corte de 7 bilhões do dinheiro da Educação anunciado pelo Governo Federal. Não se conformem quando o novo ministro da Educação, Cid Gomes, disser, como disse em entrevista a alguns jornais, que esse corte não afetará em nada a atuação da área de educação.

Não se conformem quando o Governo aplica apenas 45% da verba destinada à Educação, como fez em 2012.

É a Educação que vai diminuir os índices de violência que só em crimes de morte nos deixam com estarrecedores índices de 56 mil mortes por crimes por ano. E a morte do Alex ainda não está contabilizada. O Alex será mais um índice em outra pesquisa sobre a violência no Brasil.

Diversos depoimentos sobre o Alex nos foram encaminhados ou foram publicados, nós escolhemos parte de um depoimento da professora Jaqueline Girão Soares e um trecho do depoimento do professor Filipe Porto, do Colégio de Aplicação.

A professora Jaqueline escreveu: “Alex mergulhou fundo em todas as atividades do estágio, que não são poucas. Preparou regências extremamente criativas e inovadoras, participou de inúmeras atividades da escola e se tornou uma referência de amizade e nerdice para muitos alunos. Não poderia deixar de mencionar, também, a firmeza de argumentação do Alex, que fazia questionamentos altamente instigantes com muita elegância. Seu espírito colaborativo era outra de suas marcas…”

O professor Filipe destacou que o Alex repetiu em seu relatório de prática de ensino, por diversas vezes, que o que aprendeu no Colégio de Aplicação e na Faculdade o faria uma pessoa melhor.

E é assim que nós, pais de ALEX SCHOMAKER BASTOS, assassinado pela incúria do Estado brasileiro, gostaríamos que vocês homenageassem seu colega. Comecem a nova etapa da vida de vocês, que se inicia agora, como pessoas melhores, que farão um país melhor. Um país onde, queremos acreditar, jovens não serão mortos em pontos de ônibus, nem por bala perdida, nem pela polícia, a quem cabe nos proteger.

Infelizmente o Alex não poderá mais contribuir, mas ele ficará sempre em nossos corações com seu sorriso, sua alegria e crença na VIDA. Que ele gosta tanto de estudar.

Mausy e Andrei, pais orgulhosos e entristecidos de ALEX SCHOMAKER BASTOS

Eu sou Alex, para sempre
‪#‎eusoualex‬

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A impotência dos pais órfãos

Revista Época, edição 868, 26/01/2015:

RUTH DE AQUINO
A impotência dos pais órfãos

A violência urbana absurda no Brasil, sem paralelo no mundo, deixa órfãos milhares de pais e mães todos os anos. Crianças e jovens são mortos por balas perdidas, por balas de assaltantes, por balas de PMs. Em qualquer lugar. Escola, clube, restaurante, calçada, ponto de ônibus, praia e até dentro de casa. Pais e mães de todas as classes sociais perdem seus filhos para o descaso e o desleixo de um Estado que se omite ou contribui para a barbárie armada. O Estado brasileiro é criminoso, é cúmplice, é culpado por falhar em todas as suas atribuições.

Alex Schomaker Bastos tinha 24 anos. No dia 8 de janeiro, acordou às 7 horas, tomou café preto com iogurte e banana. Não usava relógio. Vestiu, como sempre, bermuda e camiseta. A mochila não era de grife. Só gastava dinheiro com computador. Seu celular era comum, não era iPhone, ele dizia que não precisava. Para estudar biologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Praia Vermelha, no bairro de Botafogo, pegava o ônibus 434, linha que passa na esquina de casa, no bairro do Flamengo.

Gostava de mitologia nórdica. Na perna, uma tatuagem do martelo de Thor, algumas runas. Na mão direita, outra tatuagem, com o símbolo dos deuses da força. Alex se decidiu cedo pelo estudo de biologia, com especialidade em genética. Lia Darwin desde os 12 anos. Queria fazer doutorado na Finlândia. Sonhava em conhecer Galápagos. Um passatempo era o jogo eletrônico de cartas Magic. Outro era jogar futebol americano. Andava de bicicleta no Aterro. Na Praia Vermelha, na Urca, tomava água de coco.

Alex foi atingido por sete tiros, um deles no coração, no ponto de ônibus, às 21h30 do dia 8 de janeiro, depois de passar uma mensagem pelo celular para a mãe, às 21h16. Os dois assaltantes, em duas motos, se irritaram quando Alex segurou assustado a mochila, com documentos, R$ 12 e um cartão de transporte, RioCard. Mandaram bala e fugiram, só levaram o celular. No momento em que Alex caía ao chão, sua mãe, a professora Mausy Schomaker, tirava da geladeira seu jantar, no ato rotineiro de toda mãe. Alex não jantaria naquele dia e em nenhum outro mais, não iria a Galápagos, não daria aulas de biologia, não faria mestrado e doutorado, não casaria com a namorada, Bia, também bióloga, não teria filhos.

Antes de entrar em choque, Alex deu o endereço de sua casa a quem o socorreu. A mãe recebeu a PM pouco depois das 22 horas e soube que o filho estava baleado no Hospital Miguel Couto. Foi para lá, “desarvorada”, e os outros filhos não a deixaram ver o corpo de Alex. Só viu o rosto depois, no caixão. Alex foi cremado, e os pais jogaram as cinzas na Enseada de Botafogo. As roupas, os objetos, os livros foram distribuídos entre amigos. Os pais dizem viver uma “irrealidade”. Quando Mausy e Andrei se apaixonaram, cada um já tinha dois filhos do primeiro casamento. Alex era o caçula, o único que vivia ainda com os pais.

“Hoje tomei uma cerveja com os outros filhos, fizemos um almoço em casa e lembramos dele. Chorei muito. É como se traísse Alex ao sorrir, ao beber uma cerveja”, disse Mausy. “Mas é o que ele quer de nós. Alex é nosso filho, nossa dor, nossa tristeza eterna, o buraco da alma. Nós somos Alex. Não perdoamos. Nem o assassino, nem o Estado, nem o país. Não tenho um pingo de perdão, um pingo de fé. Não sou Deus, Maomé ou Buda. Não quero ouvir consolo de pessoas religiosas. Sou de esquerda, sempre serei de esquerda. Mas tem algo muito errado neste país, que se esqueceu da educação. Eu tinha 19 anos na ditadura e me sentia mais livre para andar na rua do que qualquer garoto de 16 ou 17 anos hoje. Um dia aquele ponto de ônibus será iluminado, haverá ali uma cabine, com policial dentro. Não tenho sentimento de vingança, não quero matar ninguém. Mas espero que cada um no Estado cumpra seu papel. A gente precisa trocar as armas por livros. O Hino Nacional não pode ser cantado só no Maracanã.”

Repetindo: o Estado brasileiro é criminoso, é cúmplice, é culpado por falhar em todas as suas atribuições. A falta de instrução universal e de qualidade – o governo Dilma acaba de cortar R$ 7 bilhões na verba de Educação! A falta de uma política federal e integrada de segurança, que dê apoio logístico e estratégico aos governadores. A falta de prisões dignas e adequadas. A falta de investigação séria – só 8% dos homicídios são esclarecidos! A falta de punição – as leis beneficiam bandidos. A falta de rigor com os policiais assassinos. A falta de controle nas fronteiras, por onde entram fuzis e metralhadoras. Se o Brasil se indigna com o terrorismo ou a pena de morte no exterior, que se revolte com a execução de 56 mil brasileiros todo ano, a sangue-frio! Não há milhões de nós em protesto nas ruas. Somos carneirinhos a caminho do abate?

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CARTA ABERTA PARA O SECRETÁRIO DE SEGURANÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


Senhor secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro
José Mariano Beltrame

Nós, pais de ALEX SCHOMAKER BASTOS, assassinado no ponto de ônibus da rua General Severiano no dia 8 de janeiro, aproveitamos este encontro, muito doloroso para nós, para gritar não apenas nossa dor, mas também nossa indignação como cidadãos em relação à violência na cidade do Rio de Janeiro, que nunca mais será maravilhosa para nós.

Temos consciência de que o senhor não é o responsável direto pela violência em nossa cidade, comprovada pelas notícias diárias sobre crimes e mortes e, principalmente, pela certeza da insegurança vivida por todos no estado do Rio de Janeiro.

Mas o senhor é a substantivação do Estado e do que o Estado deve a nós cidadãos que pagamos impostos, trabalhamos, estudamos e não vivemos à margem da Lei.

Queremos confiar nas investigações, na Delegacia de Homicídios e numa nova polícia com um efetivo comprometido com a Justiça.

Senhor secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, vamos ser muito objetivos e práticos no nosso pedido: qual a data que o senhor define para que seja instalada uma cabine da Polícia Militar, com policiais presentes 24h, próxima ao ponto de ônibus da rua General Severiano, em frente à Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Botafogo?

Sabemos que não é sua seara, mas como o senhor pode colaborar para que o local seja adequadamente iluminado? O senhor, com certeza, sabe que lugar iluminado é mais seguro.

Caso o senhor consiga algum tempo, leia os textos que anexamos a esta carta, que são parte das declarações dos professores, alunos e amigos de nosso filho ALEX SCHOMAKER BASTOS, professor, biólogo, estudante e cidadão. Talvez, assim, o senhor conheça melhor quem a incúria do Estado permitiu que fosse assassinado aos 24 anos, apenas porque prefere pegar o ônibus 434. Parece que aqui no Estado do Rio de Janeiro é proibido ao cidadão escolher a linha de ônibus que melhor lhe atende.

Para terminar, reproduzimos parte de um dos diversos textos da UFRJ em homenagem ao nosso filho ALEX SCHOMAKER BASTOS:
“Na contramão da desumanização que produz e naturaliza tragédias como a de sua perda violenta e prematura, nós, professores, pesquisadores e funcionários da Faculdade de Educação, reafirmamos nosso compromisso de formar professores e pesquisadores comprometidos com a produção de conhecimentos que fundamentem uma sociedade mais justa e uma escola pública democrática e de qualidade. Repudiamos veementemente a violência que nos rouba diariamente dezenas de jovens e não daremos trégua às autoridades até que garantam segurança no interior e no entorno de nosso campus. Chega de descaso!”

Mausy Schomaker
Andrei Bastos
Pais orgulhosos e entristecidos de ALEX SCHOMAKER BASTOS
Eu sou Alex para sempre

(Carta entregue ao secretário José Mariano Beltrame durante encontro com a família no dia 22/01/2015, quando o secretário empenhou sua palavra de que a partir de hoje uma viatura da PM fará policiamento ostensivo na praça em que ALEX SCHOMAKER BASTOS foi assassinado, em frente ao Campus da UFRJ)

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Meu pedido de clemência

ANTONIO BASTOS

Não posso pedir clemência para o meu sobrinho, fuzilado em um ponto de ônibus quando voltava para casa. Mas, posso pedir por todos os jovens que ainda estão no corredor da morte de nossas ruas, aguardando serem fuzilados.

Dirijo-me, portanto, à presidente Dilma, para pedir por clemência a todos estes jovens; para pedir que devolva os 7 bilhões de reais retirados da verba de educação; para pedir que reúna-se com governadores e prefeitos de sua base aliada ou não para fazer com que a segurança pública, a saúde e a educação neste país sejam de fato uma prioridade.

Lembro à nossa presidente que, para isso, ela não precisará enviar cartas ao Papa, chamar embaixadores, e não dependerá da boa vontade de nenhum presidente de outro país para que ele ignore suas próprias leis, como fazemos aqui no Brasil.

Clemência e misericórdia, é só o que peço.

Observação: no Brasil “são fuziladas” 56 mil pessoas por ano, 153 por dia, 6 pessoas por hora, 1 pessoa a cada 10 minutos.

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Alex – Nota da Faculdade de Educação da UFRJ

“But where shall wisdom be found? And where is the place of understanding? Man knoweth not the price thereof; neither is it found in the land of the living… for the price of wisdom is above rubies”. (O Homem não sabe o valor do saber, nem pode encontrá-lo na terra dos vivos… pois o preço da sabedoria está acima dos rubis). Neil Gaiman, Sandman (tradução livre de Alex Schomaker Bastos).

Assim Alex abre seu relatório de Prática de Ensino em Ciências Biológicas, cursada em 2014 na Faculdade de Educação e no Colégio de Aplicação da UFRJ. Neste instigante relato, nos convida a conhecer seu processo de se tornar professor a partir da descrição das muitas atividades realizadas e da bonita relação que estabeleceu com os colegas de grupo, alunos da escola, professores orientadores e supervisora. Conclui com a certeza de que influenciou muitas pessoas e foi influenciado para se tornar “um professor melhor, mais autocrítico e reflexivo, além de uma pessoa melhor, capaz, através do respeito e do amor, de agregar conhecimentos e atitudes positivas aos alunos e figuras presentes no colégio e na sociedade”. Demostra ter compreendido o valor de uma educação libertadora e, ao citar Paulo Freire, ressalta que ninguém liberta ninguém: as pessoas se libertam em comunhão. Em comunhão com a humanidade e o cosmos, Alex partiu em busca da sabedoria que não encontrou no mundo dos vivos, mas que certamente o espera “acima dos rubis”. Que seu exemplo de integridade e determinação e seu amor ao conhecimento sejam inspiração para o fortalecimento de laços acadêmicos e humanitários na UFRJ e fora dela.

Na contramão da desumanização que produz e naturaliza tragédias como a de sua perda violenta e prematura, nós, professores, pesquisadores e funcionários da Faculdade de Educação, reafirmamos nosso compromisso de formar professores e pesquisadores comprometidos com a produção de conhecimentos que fundamentem uma sociedade mais justa e uma escola pública democrática e de qualidade. Repudiamos veementemente a violência que nos rouba diariamente dezenas de jovens e não daremos trégua às autoridades até que garantam segurança no interior e no entorno de nosso campus. Chega de descaso!

Professores, funcionários técnico-administrativos e alunos da Faculdade de Educação da UFRJ.

Fonte: Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ.

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EX NIHILO


EX NIHILO

Antônio Bastos

Ex nihilo é uma expressão em latim que significa “a partir do nada”. Filosoficamente, a expressão indica um princípio metafísico segundo o qual o ser não pode começar a existir a partir do nada. A frase é atribuída ao filósofo grego Parménides.

O princípio em questão pode ser colocado em relação à origem do universo. Dado que o universo existe, então, ou existiu sempre, ou teve um começo. Se teve um começo, então significa que surgiu do nada, porque o universo, é por definição, tudo o que existe.

Existem religiões que postularam que o universo não surgiu do nada, mas de um Deus criador, e que esse Deus existiu sempre. Isto contradiz o princípio de que surgimos “a partir do nada”. Logo, seguindo este raciocínio, o universo existiu sempre.

Meu sobrinho, Alex, estudou em uma escola religiosa e escolheu fazer a faculdade de Ciências Biológicas. A ele coube, e caberia ainda muito mais, colocar ciência, religião, filosofia, e tantas outras áreas do conhecimento em diálogo para, através da bioinformática, área à qual se dedicava, alcançar seu objetivo pessoal: ajudar na cura de doenças.

Mas este caminho foi interrompido, assim, “a partir do nada”. Um crime de latrocínio tirou-o de nós.

Com o choque do fato, naturalmente, me fiz a pergunta: como assim isso foi acontecer com ele? A resposta, a razão, eu já sabia, mas ela ficou mais evidente na minha mente ao viver esses dias de profunda tristeza.

Não vou me atrever a filosofar. E, me afastando um pouco do assunto sobre a criação do universo, tema que deixo para meu sobrinho cientista discutir onde estiver, e indo ao encontro de outro assunto, o da nossa criação, da nossa formação como cidadãos, como pessoas que constroem e moldam outras pessoas, outros cidadãos – assunto também relacionado ao meu sobrinho, como educador, professor que é, digo que “nada surge do nada”.

O meu sobrinho não surgiu do nada. Sua inteligência, seu amor, sua dedicação ao estudo, ao ensino, tudo nele pôde prosperar porque seus pais, sua família e ele próprio, escolheram o caminho do bem, e nele se mantiveram com muito esforço, dedicação e sacrifício.

A violência que nos tirou o Alex do convívio, também não surgiu do nada. Ela é fruto de uma sociedade “tolerante”, que tolera e se cala diante do intolerável, que perdeu sua capacidade de se indignar, que perdeu sua consciência cidadã.

Cada vida tirada de forma brutal e covarde diminui a todos nós, pois fazemos parte da humanidade.

Todos nós carregaremos, junto com o Estado, a culpa pela morte do Alex, sim! A inépcia do Estado, deste governo e dos governos anteriores, é um reflexo do que somos. Este Estado, este governo e os anteriores, também não surgiram do nada.
Nós somos o Estado!

No Brasil morrem de forma violenta mais de 50 mil pessoas por ano. Este número supera as mortes ocorridas em 1 ano em todos os conflitos, as guerras, existentes atualmente no mundo! Supera o número de mortos de todos os atos terroristas ocorridos no ano…

Na França, mataram 12 jornalistas num ato de terror. Nos EUA um guarda branco matou um jovem negro. A intolerância racial e religiosa, nesses casos, fizeram com que pessoas perdessem a vida de forma brutal. Mas, em ambos os casos, a sociedade não perdeu a capacidade de indignar-se, de reagir. Negros foram as ruas nos EUA; a sociedade francesa se indignou, reagiu.

Na Nigéria mataram de forma bárbara mais de 2 mil pessoas de uma só vez. No Brasil são mais de 50 mil por ano, mais de 4 mil por mês. E não somos capazes de sentir indignação.

Nós, assim como muitos países africanos, pobres, ou socialmente menos desenvolvidos, não temos consciência cidadã. Esta é a diferença. A África, o terror, o cidadão de segunda classe, tudo isso, está tudo aqui, no Brasil.

Enquanto tolerarmos cortes nas verbas de educação, da saúde e nos demais serviços essenciais; enquanto aceitarmos estatísticas manipuladas para defender políticos e partidos, no lugar da defesa de causas e bandeiras; enquanto não entendermos que nós somos o Estado!, não iremos ter consciência cidadã e estaremos entregues à própria sorte, ou desgraça.

O padre na missa de sétimo dia do Alex, falou sobre ciência, religião, sobre a alegria da vida, a alegria do Alex. Falou e lembrou o cientista que Alex é, o cidadão, gente boa, que ensina e quer ajudar a descobrir, através da pesquisa, a cura para doenças. O padre citou na sua fala a expressão “ex nihilo” para dissertar sobre a trajetória e história do Alex, sempre dedicada ao estudo e às pessoas, e para, ao fim, dizer quem ele é: amor em forma de cientista e professor.

Escrevo assim, no presente, uso este tempo de verbo, como a Mausy, mãe do Alex, o fez em sua fala na igreja, pois ele, Alex, não está morto, ele viverá entre nós para sempre.

Nós somos Alex.

(Publicado no Facebook em 16/01/2015)

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Alex – Nota do Centro Acadêmico de Biologia

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Memorial Descritivo para o Mestrado de Alex

Alex Schomaker Bastos
Memorial Descritivo para o programa de Mestrado em Química Médica, IBqM/UFRJ

Nasci em 04/10/1990, apresentando interesse por ciência e tecnologia desde pequeno. Desde a infância, com meu quarto decorado com estrelas e planetas, me interessei pelos mistérios do Universo, lendo sobre fenômenos físicos como o Big Bang, buracos negros e o nascimento de estrelas, além de me interessar profundamente pela origem e história da vida na Terra, estudando sobre evolução, fósseis e bioquímica. Um evento marcante foi um aniversário em que ganhei um kit de química experimental, o qual eu não conseguia parar de brincar. A partir desse instante, eu sabia que queria fazer algo relacionado a ciência.
Além do interesse pelas ciências de cunho mais natural, fui apresentado desde cedo ao mundo dos computadores, especialmente graças a meu pai, que possuía uma empresa ligada à informática. Quase que diariamente eu visitava o trabalho de meu pai e ficava em um computador, inicialmente jogando, mas com o tempo fui aprendendo a mexer em certas partes do código dos jogos, na rede e no hardware, desenvolvendo um grande interesse por programação.
Felizmente, tive o privilégio de estudar em um bom colégio durante o ensino fundamental, o Instituto Metodista Bennett, que possuía estrutura de laboratório de ciências, uma boa biblioteca e um laboratório de informática, o que foi importante para que eu continuasse a desenvolver meu interesse científico e em tecnologia. Além da estrutura, tive duas professoras que me inspiraram bastante em termos de estudo científico e que me despertaram também o interesse em ensinar, ao me indicar como monitor para um sistema de monitoria para alunos que estavam indo mal ao longo do ano.
Já no ensino médio, devido a uma demissão em massa dos bons professores do colégio, fui estudar em um curso e colégio, o Colégio Qi. Durante o ensino médio, especialmente durante a 2a e 3a série, estava fortemente dividido entre fazer Ciências da Computação, ou Ciências Biológicas. Acabei decidindo fazer Biologia devido a um assunto que se destacava acima dos outros em termos de interesse, a evolução.
Desde que li “A origem das espécies” pela primeira vez aos doze anos, me tornei obcecado por tentar entender mais a história da vida na Terra e, ao passar para Biologia na UFRJ no vestibular de 2008, esperava conseguir expandir essa parte de meu conhecimento. Outro aspecto importante para que eu tomasse a decisão de estudar Biologia foi meu interesse crescente em ensinar.
Já no começo do segundo ano de faculdade me candidatei a uma vaga de monitoria no colégio em que fiz o ensino médio, buscando ampliar meu contato com o ensino, acabando por participar intensivamente do cotidiano escolar do curso. Do aspecto da pesquisa, comecei a fazer iniciação em um laboratório de genética de populações, o que me ajudou a entender melhor uma das vertentes dos estudos evolutivos atuais. Entretanto, achei a tarefa de bancada realizada no laboratório, seguindo protocolos pré-determinados, um pouco insatisfatória e desestimulante.
O fim do segundo ano e o começo do terceiro ano de faculdade foram períodos bem conturbados para mim. Um momento em que comecei a pensar se queria mesmo continuar fazendo Biologia, um pouco desestimulado por matérias que não despertaram tanto o meu interesse, voltando a pensar na possibilidade de fazer algo relacionado à informática, ou que talvez eu devesse ter feito Biofísica, por exemplo. Esse desinteresse acabou se refletindo em minhas notas, que infelizmente sofreram com esse quase abandono.
Felizmente, mais para a metade do terceiro ano, comecei a participar de um projeto de educação ambiental que estava iniciando no Colégio Qi (Qi Ambiental), auxiliando o professor principal a organizar as atividades e ajudando nas aulas propriamente ditas. Nesse mesmo período me tornei monitor bolsista de Ecologia para a Engenharia Ambiental e para o curso de Biologia. Essas experiências me fizeram perceber o quanto eu gostava de ensinar, o que serviu para revitalizar meu interesse no curso de Biologia e me fez optar pelo curso de Licenciatura, que também me permitia de certa forma estudar a Biologia de forma mais ampla.
Durante o primeiro ano de Licenciatura me dediquei muito ao projeto do Qi Ambiental, ajudando na coordenação do projeto e ministrando aulas para o subprojeto de Microbiologia. Entretanto, sentia falta de participar mais ativamente do meio científico, o que me fez começar a pesquisar possíveis áreas de interesse. Aliado a essa busca por um tópico de pesquisa, estava fazendo duas matérias da faculdade que, coincidentemente, me apresentaram ao tema da bioinformática e da informática aplicada à biologia.
Graças a matéria de Etologia, comecei a me interessar pelo tema da evolução do comportamento e, ao estudar, vi que era um tema em que boa parte dos estudos se baseava em simulações computacionais, o que me fez desenvolver uma simulação em Python como um trabalho auto-proposto, que desde então, mesmo ainda cursando a graduação, me rende uma aula como professor convidado todo ano. Além desse tema, a Ecologia, a Genética de Populações e a Evolução se mostravam bem pautadas em simulações, ou em técnicas computacionais, o que abriu meus olhos para a Bioinformática. Ao pesquisar sobre possíveis matérias sobre o tema para que eu o conhecesse mais, esbarrei no site do professor Francisco Prosdocimi.
Depois de pouco tempo comecei a fazer iniciação científica no laboratório do professor Francisco, onde fui apresentado a diversas ferramentas, terminologias e métodos de estudo em bioinformática, especialmente na parte de montagem e análise de genomas. Tive também a oportunidade de criar minhas próprias ferramentas para serem utilizadas no laboratório e além.
Dentre tais ferramentas, uma que merece destaque é o programa mitoMaker. Trata-se de um projeto em Python que estou desenvolvendo há quase um ano que busca facilitar a montagem e anotação de trechos alvo de genoma, inicialmente focado em mitocôndrias. Tal projeto ganhou um prêmio de melhor trabalho de iniciação científica e vem sendo utilizado regularmente no laboratório e fora dele em outros institutos. Além disso, estamos finalizando um artigo sobre o programa visando uma publicação em breve e já apresentei uma aula sobre montagem de mitocôndrias pautada em sua utilização à convite do professor Francisco.
Fora finalmente ter me encontrado na área da pesquisa e estar muito feliz com o trabalho desenvolvido no laboratório, continuo participando do projeto de educação ambiental, trabalhando com o tema de energia solar, tendo aplicado uma aula no Colégio Pedro II além do Qi. Tive também a oportunidade de participar do estágio em Prática de Ensino no CAP-UFRJ durante o ano de 2014, que foi uma experiência didática, que aprimorou minha auto-reflexão como educador e como pesquisador, reforçando minha idéia de que, preferencialmente, um não deve existir isolado do outro, visto que a Ciência, sem o compartilhamento e ampliação da mesma, me parece perder seu propósito.
Espero através da participação no programa de mestrado poder continuar fazendo boa ciência, na área em que me descobri como pesquisador, desenvolvendo ferramentas que aprimorem o desenvolvimento científico na bioinformática, além de me aprimorar como educador e divulgador das ciências, com meus colegas que me ajudaram a chegar até aqui.

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EU SOU ALEX

Amigos e amigas,

É com profunda tristeza que venho comunicar o falecimento do Alex, pessoa alegre, pesquisador brilhante e amigo de infância. Não sei se todos tiveram a oportunidade de se informar, mas ele morreu ontem, após ser baleado em um assalto, quando saía à noite da UFRJ (campus Praia Vermelha).

Que nós direcionemos as nossas orações e o nosso apoio à família do nosso amigo.

A morte dele não representa apenas um episódio destacado, mas expõe a fragilidade de nossas políticas de segurança pública e o descaso que temos com os programas de desenvolvimento social. Por essa razão, convido a todos, e não só aos próximos, para participarem desta mobilização, seja para homenagear esta pessoa querida, seja para reivindicar uma sociedade mais pacífica. Não podemos perder a nossa capacidade de nos indignarmos diante desse quadro de violência urbana.

O evento que planejamos será neste domingo (11/01/2015), tendo início às 9 h, no portão que dá acesso à Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ (campus Praia Vermelha).

A nossa sugestão é que ele se divida em três momentos:

1) Concentração

Neste primeiro momento, nós nos reuniríamos no portão de entrada. Embora nós incentivemos que todos os que quiserem façam os seus próprios cartazes e tragam as suas lembranças pessoais (flores etc.), nós teremos ali uma pequena quantidade de cartazes, pilots e flores extras. Aqueles que desejarem escrever uma mensagem de despedida ou de indignação, terão à sua disposição esse material.
Ainda na concentração, poderemos ter uma caixa de som com microfone, para que todos possam rememorar momentos de alegria, deixar o seu recado ou transmitir qualquer outra mensagem que julgarem adequadas.

2) Mobilização

Neste segundo passo, nós poderíamos aproveitar os intervalos de fechamento do sinal (localizado em frente ao ponto de concentração) e caminhar entre os carros, mostrando os cartazes que tivermos produzido (de homenagem ao Alex ou de condenação do quadro de violência urbana que vivemos) e afixando rosas nos para-brisas dos veículos. Esse seria o nosso momento de sensibilização das pessoas que estivessem circulando pelo local. Por isso, é importante que, podendo, todos levem o seu cartaz e a sua flor.

3) Prestação das homenagens

Por fim, seria bacana se todos nós atravessássemos a rua, ao final da mobilização, e nos dirigíssemos ao ponto de ônibus em que o Alex foi baleado. Ali, poderíamos deixar tudo o que viéssemos a levar (cartas, outras flores, lembranças etc.). Depois, reuniríamos esse material e o entregaríamos à família, para demonstrar como ele era uma pessoa querida.

Bem, nós acreditamos que essa seria uma bonita homenagem ao nosso amigo. É claro que todos aqueles que tiverem outras ideias, sugestões ou dicas, podem se sentir à vontade para, no domingo, enriquecer esta dedicatória ao Alex. A única sugestão que faríamos é que todos fossem de branco.

Esperamos todos no domingo,

Amigos e familiares do Alex

Ps.1: Peço a ajuda de todos na divulgação deste evento, para que nós possamos engrandecer a homenagem. Todos são bem-vindos, inclusive os que, embora não conhecessem o Alex, estiverem (como nós) revoltados com a realidade de violência que vivenciamos diariamente: conhecidos, amigos de amigos e sensibilizados. Se puderem, chamem também todos os amigos da lista “amigos em comum” aqui do face.

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